Eu não sei de onde partiu essa necessidade de escrever a respeito da minha vida, mas julgo os acontecimentos de ontem e o livro que estou lendo como culpados. Os dois incitaram coisas em mim que não costumam serem tão profundos pensamentos desesperados. E, por mais que eu esteja mais estável do que nas últimas temporadas, eu sinto que estou caminhando sobre um pântano. Ora afundando, ora andando sobre folhagens espessas, mas nunca sobre a terra.
O que me preocupa são os meios que eu penso para encontrar uma causa para tudo isso, uma ausência exata que cause toda essa preocupação, não a presença de novas coisas na minha história. Quando eu chego a crises como essa, costumo recorrer a várias coisas para me ajudar, até encontrar a perfeita para a situação. Pode ser música, como Black Veil Brides, mas eles me curam tão rápido que eu ando evitando ouvi-los enquanto estou triste, pois perco a noção da profundidade das minhas preocupações. Pode ser escrevendo no meu diário pra minha terapeuta, mas não sinto completa intimidade ou ligação com ela o suficiente pra me abrir dessa forma, embora eu saiba que posso contar com ela. Eu poderia até falar com a Giovana, o primeiro item que eu tinha pensado em descrever e falar sobre, mas ela é tão racional, tão perfeccionista na sua busca – e encontro – de respostas, que chega a ser frustrante de tão útil e simples. Além de que ela está isolada do mundo em sua nova vida.
Então, sozinha, eu penso: o que está faltando? Em qualquer aspecto da minha vida, as coisas estão caminhando, dessa vez pra um lugar bom. Eu estou estudando, coisa que eu não fiz ano passado inteiro. Eu estou interagindo mais com as pessoas, mesmo não sendo meu forte ou minha primeira escolha. Voltei a ler regularmente, tenho uma boa vida virtual, um bom sono e uma boa alimentação. Relacionamentos amorosos a parte, por que eu não julgo coisas assim, eu estou com uma vida social boa, no geral.
Mas por que eu sei que no fundo tudo o que eu disse naquele último parágrafo é mentira? Por que eu desejo que seja? Tédio? Quero me sentir útil de novo? Sentir que estou fazendo alguma coisa de verdade? Talvez eu só precise de louça pra lavar ou de um hobbie, mas eu não curto estabilidades como esta. Eu gosto de altos e baixos mais do que ninguém, e talvez isso tenha se tornado um vicio. Aquela sensação de superar uma fase ruim, não tem igual. Ou até mesmo de fazer um bem inimaginável pra qualquer um, sem mesmo você sabendo disso no momento. Eu gosto de me sentir útil, gosto de desafios assim. Mas agora eu chego a duvidar de que isso seja algo bom pra mim.
O que eu preciso pra poder ficar satisfeita? Acho que é essa a questão. Se eu tenho tudo, o que falta pra eu sentir que não falta mais nada? Sem essa de um companheiro ou amigos novos, não chego a cogitar namoros nem precisar de mais amigos. Eu seleciono várias opções, como: emprego, dinheiro, viagens, aprendizado. Muito mercenário de primeira percepção, eu sei. Mas é realmente algo que está sempre em mim.
Um emprego me daria mais independência, com certeza. Coisa que seria boa por vários motivos. Como não precisar pedir coisas pra sua mãe todo dia, ter algo o que fazer enquanto seus amigos estão no curso técnico e o simples prazer de poder consumir. Acredite, eu gosto muito disso.
O problema de conseguir um emprego é que eu ainda tenho quinze anos e só posso conseguir um legalmente com 16, e mesmo que eu procurasse algum sem carteira assinada, São Paulo é muito burocrática, é raro conseguir algum estabelecimento que aceite menores. Então eu apelo pro artesanato, que eu vou começar a fazer no próximo sábado. Eu desejo ter algum dom hereditário – minha mãe é muito boa com essas coisas – encubado esperando ser despertado. E que isso me faça conseguir fazer os outros comprarem o que eu pintar ou modificar. Acho que é minha única saída.
Dinheiro é a chave pra me deixar feliz. Ler isso pode parecer fútil e totalmente tosco, mas eu vou explicar por que sou legal. Poder comprar as coisas que você gosta é mais importante do que parece. Principalmente pra mim, que passei por diversas mudanças de estilo e ainda estou aperfeiçoando meu próprio ideal de mim mesma. Então pra você, certo item não passa de certo item, pra mim e em mim, é algo que vai me completando e traduzindo o que eu sou aos poucos. E cá entre nós, as coisas que você quer ter não caem do céu.
Viagens. Acho que aí entra o fato de eu não ter ido pro Rio de Janeiro no último verão. Mas eu vou além, eu quero ir além. Meu próprio corpo sente a necessidade de novos lugares e novas realidades. Se eu pudesse ir pra algum lugar agora sem condições nem complicações, eu escolheria Nova Iorque. É tudo tão 24h e intenso, a todo instante, que deve ser incrível, uma sensação maravilhosa. Mas quando eu aprender mais e o quanto eu julgo suficiente sobre música, sobre influências que eu gosto, eu escolheria ir pra Londres. Pra quem tem imenso amor ao punk, não preciso justificar não é?
Aprender. Um verbo muito simples, eu, particularmente, acredito que “aprender” seja um “conhecer” com intensidade. Eu sou muito preguiçosa, admito. Mas se tem algo que eu tiro energias para me empenhar sem limites, é pra aprender sobre coisas que eu gosto. Na maioria das vezes, sobre música, em outras nem tão frequentes é sobre estilos e coisas sobre as quais eu leio.
Então eu acredito que é com tudo isso que eu não estou satisfeita. Não quero mais ficar sentada em casa o dia inteiro, embora eu goste. Eu quero viver oportunidades para ter mais oportunidades. Acho que é isso. Obrigada por me ouvir.


